quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Bonsai

 No berço lhe ensinaram disciplinar a metal certas expansões. Alinhar os chinelos à beira da cama. Organizar em degradê a caixa de giz. Domar a impaciência como a força vital da árvore pelas tesouras do miniaturista.
Aos sábados visitava a manhã da Liberdade e adquiria mais um exemplar. Meticuloso, dosava-lhe gotas de água e luz. Sinfonias enchiam o quarto-e-sala e os vizinhos podiam ouvir-lhe os solilóquios à varanda na madrugada.
Bom homem. Isso indicavam os chinelos à beira da janela.

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

No travesseiro

Pensar além é difícil. Ir mais longe é quase impossível quando se é limitado espiritualmente. A gente acaba por se abraçar aos pedaços de vivência que teve e tenta elaborar nossa melhor imagem, nossa melhor máscara quando necessário, pega qualquer suspiro e torna inspiração para suportar os poucos minutos que restam de um dia cansativo e angustiante, torcendo para que o amanhã, pelo amor de qualquer deus, seja melhor do que hoje.
Trancar-se no quarto, chorar baixinho em baixo do lençol, secar as lágrimas e depois sair como se nada tivesse acontecido. Nunca haverá um outro que entenda a dor e o sofrimento que sentimos por completo, a compreensão é limitada pela racionalização dos que não sentem, dos que pensam em explicações, em justificativas, em razões. Nenhuma teoria é suficientemente clara e boa para explicar a solidão que se sente por estarmos no mundo, de sermos únicos, de não podermos compartilhar nossa individualidade, que como a palavra mesma diz é individual. Somos singulares até nas dores comuns.

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sábado, 12 de abril de 2014

Uma tarde sua mãe foi lhe visitar. Achou que já era hora de falar das visitas noturnas do pai ao seu quarto, quando ainda criança, passadas, mas não esquecidas...
A mãe disse que já sabia.
Mostrou-lhe o caminho da porta e lhe recomentou nunca mais voltar.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Na parede

Na parede atrás da cabeceira da cama estava meu nome, escrito com lápis preto meio apagado, ainda está lá? Perto da cabeceira da cama, da cama que tem tantas recordações, da cama que tinha nosso cheiro no lençol, da cama onde comíamos, onde bebíamos, onde ficávamos.
A cama que é sua antes de minha, mas tão nossa quanto de qualquer outra, qualquer uma que me deixaria cheia de ciúmes, cheia de tristeza e de recordações, recordações do cheiro do lençol da cama.



Pink & Cérebro

domingo, 15 de dezembro de 2013

O que se foi

Porque o teu passado me incomoda? Faço-me a mesma pergunta todos os dias, é um martírio ver tua trajetória, tuas lutas e dores, e ver que no meio disso tudo você caiu, você caiu, meu bem caiu nas mãos de quem não te amava, nas mãos de quem não te merecia, de quem nunca te quis, e eu agora passo a bola para você: “Percebes que meu sofrimento é reflexo da tua falta de maturidade pra perceber que foi usada?  E de que não basta ser usada, você ainda traz todos aqueles que te usaram para a nossa cama, para o nosso dia a dia?” Numa conversa rotineira você me fala dos teus amores e acaba comigo, me deixa no chão, me deixa sem chão.
Eu me reviro pelo avesso tentando entender, tentando aceitar, tentando engolir calado os teus “não quero discutir”, “não você não sabe a hora de parar”, abre teus olhos meu bem, porque o passado se foi, e com ele eu vou também.



Pink e Cérebro        http://contemporaneo-pec.blogspot.com.br/

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Deu!


- Dinheiro pouco, miséria muita, doutor.
- Não contribuía com nada, mas pra beber tinha.
- Queria, não dava conta, ficava brabo e me batia.
- Conselho não faltou pra se emendar.
- Ontem, podre de bêbado, quis mexer com a menina.
- Pensei: assim já é demais, só matando.
- Foi uma só, bem no cocuruto. 

Morus

Quis assim


Viveu como nasceu e agora morria, só. 

Morus